Elias Jabbour
Elias Marco Khalil Jabbour (São Paulo, 12 de dezembro de 1975) é um geógrafo, professor universitário e escritor brasileiro. É professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), membro do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e o principal especialista acadêmico brasileiro em socialismo chinês e planejamento estatal. É reconhecido pelo desenvolvimento de duas categorias teóricas interrelacionadas — o metamodo de produção e a nova economia do projetamento — como instrumentos de análise da economia política socialista da China, e por uma série de livros sobre o tema ao longo de duas décadas.[1] Atualmente preside o Instituto Pereira Passos (IPP), instituto municipal de urbanismo, pesquisa e planejamento de políticas públicas da cidade do Rio de Janeiro.[2]
Vida e formação política
Jabbour nasceu em 1975 na periferia da zona leste de São Paulo. Seu pai era um imigrante libanês e sua mãe uma trabalhadora nordestina da Paraíba. Perdeu o pai aos onze anos de idade, após o que sua mãe, Maria da Luz, assumiu sozinha a criação dos filhos. Ingressou na União da Juventude Socialista (UJS), ala jovem do PCdoB, ainda na adolescência, e entrou para o partido em 1991, filiação que mantém sem interrupção até hoje.[2]
Formação acadêmica
Jabbour é graduado em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP, 1997), mestre em Geografia Humana pela USP (2005) e doutor em Geografia Humana pela USP (2010).[3] Sua tese de doutorado intitulou-se China: A Economia Política do socialismo e a formação sócio-espacial de um projeto nacional. Apesar de sua formação formal como geógrafo, ao longo de sua carreira tem lecionado e publicado principalmente nas áreas de economia política e economia do desenvolvimento.
Carreira acadêmica
Jabbour é professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, onde leciona nos programas de pós-graduação em Ciências Econômicas (PPGCE) e em Relações Internacionais (PPGRI).[3] Suas linhas de pesquisa são Economia Política, Economia Política Internacional, Teoria e Política do Planejamento Econômico e Estratégias Nacionais de Desenvolvimento. Dedica aproximadamente 25 anos de pesquisa ao socialismo chinês e ao planejamento estatal.[1]
Entre 2023 e 2025, atuou como consultor sênior e diretor de pesquisas do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD, também conhecido como Banco dos BRICS) em Xangai, indicado pela presidente do NBD, Dilma Rousseff.[2] Durante esse período realizou extenso trabalho de campo na China, visitando fábricas e empresas em todo o país, pesquisa que informou seu livro de 2026.[4]
Contribuições teóricas
O trabalho teórico de Jabbour centra-se em duas categorias interrelacionadas desenvolvidas ao longo de sua pesquisa, com o objetivo de oferecer instrumentos analíticos marxistas adequados para explicar a experiência chinesa sem reduzi-la nem ao capitalismo ocidental nem ao planejamento central de tipo soviético.
Metamodo de produção
O conceito de metamodo de produção, desenvolvido com o economista italiano Alberto Gabriele e apresentado sistematicamente pela primeira vez em China: O Socialismo do Século XXI (2021), designa a ordem econômica internacional capitalista — estruturada em torno da lei do valor e da livre circulação de mercadorias — como o constrangimento estrutural externo inescapável dentro do qual qualquer formação socialista contemporânea deve operar.[5] Para Jabbour e Gabriele, nenhum país socialista hoje pode simplesmente abolir o mercado, pois a ordem global impõe sua lógica como limite estrutural às escolhas internas de planificação. O conceito enquadra o debate clássico entre plano e mercado de uma nova forma: em vez de uma escolha livre, as políticas socialistas de mercado são entendidas como uma adaptação necessária a constrangimentos objetivos.
Operando dentro desses constrangimentos, Jabbour e Boer argumentam que a China representa o primeiro exemplo histórico de uma nova classe de formações econômico-sociais de orientação socialista — qualitativamente distinta das experiências socialistas anteriores, incluindo o modelo soviético, que operou em condições históricas diferentes e sem a combinação entre planificação e mercado que define o modelo chinês contemporâneo.[6] Nessa formação, múltiplos modos de produção coexistem, com o setor estatal dominante capaz de gerar efeitos de encadeamento produtivo por toda a economia, inclusive no setor privado. O Estado não suprime o mercado, mas o governa por meio da dominância da propriedade pública e da direção política do Partido Comunista.[7]
Nova economia do projetamento
A nova economia do projetamento é uma teoria do modo específico de organização econômica que Jabbour argumenta estar emergindo na China. O conceito deriva de Elementos de economia de projetamento (1959), do economista marxista brasileiro Ignácio Rangel, no qual Rangel descreveu a fusão entre economia monetária, keynesianismo e planificação soviética como um novo modo de produção surgido do período de reconstrução do pós-guerra. Jabbour argumenta que esse conceito, abandonado com a financeirização do capitalismo e o colapso da União Soviética, ressurge na China em forma qualitativamente superior — daí a economia do projetamento nova.[8]
Jabbour publicou essa teoria pela primeira vez em 2020 e desde então a desenvolveu por meio de artigos, apresentações na China e de dois números consecutivos da revista Princípios (nos. 171 e 172, 2025), organizados por Jabbour, que reuniram estudos empíricos e teóricos sobre o conceito.[9]
A nova economia do projetamento caracteriza-se por três traços que a distinguem da formulação original de Rangel. Primeiro, envolve a fusão entre micro e macroeconomia por meio de grandes projetos públicos: o Estado coordena investimentos de escala continental nos quais as estruturas de oferta e demanda de cadeias produtivas inteiras se equalizam ao longo do tempo — uma coordenação que Jabbour considera estruturalmente impossível sob o capitalismo. Segundo, opera por meio da introdução consciente de contradições na economia: o Estado introduz deliberadamente metas tecnológicas ou objetivos produtivos como contradições que a sociedade precisa superar, gerando dinamismo desenvolvimentista em vez de equilíbrio passivo. Terceiro, apoia-se em um aparato informacional de planejamento composto por Big Data, inteligência artificial e infraestrutura 5G, permitindo uma planificação compatível com o mercado e orientada para utilidades sociais de longo prazo.[8]
Em conjunto, o metamodo de produção e a nova economia do projetamento formam o que Jabbour, em colaboração com Gabriele e posteriormente com o filósofo australiano Roland Boer, denomina um novo arcabouço para a economia política do socialismo contemporâneo — que trata o marxismo não como um conjunto de prescrições fixas, mas, em suas palavras, como "a ciência do poder político" a ser reconstruída à luz da experiência histórica viva.[4]
Obras publicadas
Jabbour publicou uma série de livros sobre a economia política chinesa:[1]
- China: desenvolvimento e socialismo de mercado. 2006.
- China: infra-estruturas e crescimento econômico. Anita Garibaldi, 2006.
- China hoje: projeto nacional, desenvolvimento e socialismo de mercado. Anita Garibaldi/EDUEPB, 2012.
- China: socialismo e desenvolvimento – sete décadas depois. Anita Garibaldi, 2019.
- China: O Socialismo do Século XXI. Boitempo, 2021. Coautoria com Alberto Gabriele. Publicado em inglês como Socialist Economic Development in the 21st Century (Routledge, 2022).[5][10]
- Poder e Socialismo: governança, classes, ciência e projetamento na China. Boitempo, 2026. Coautoria com Roland Boer. Apresentação de José Paulo Netto.[6]
Prêmio Especial do Livro da China
Em outubro de 2022, Jabbour recebeu o Special Book Award of China pelo livro China: O Socialismo do Século XXI, o principal prêmio literário chinês concedido a autores estrangeiros que contribuem para a compreensão internacional do país. Foi a primeira vez que o prêmio foi concedido a uma obra de economia política, e não a uma tradução.[11] Jabbour descreveu a premiação como "um prêmio para o marxismo brasileiro", destacando que o livro aplicou o arcabouço analítico de Ignácio Rangel à realidade chinesa.[11]
Atuação política
Jabbour é filiado ao PCdoB desde 1991 e integra o Comitê Central do partido.[2] Em 2025 foi figura central da campanha nacional do partido O Futuro Tem Partido, percorrendo o Brasil para liderar debates sobre o papel do Estado, multipolaridade, soberania nacional, planejamento econômico e socialismo.
- ^a ^b ^c Xavier, Cezar (2023-06-12). Economista Elias Jabbour vai assumir diretoria no Banco dos BRICS. PCdoB. https://pcdob.org.br/noticias/economista-elias-jabbour-vai-assumir-diretoria-no-banco-dos-brics/.
- ^a ^b ^c ^d (2026-03-12). Elias Jabbour lança no Rio livro sobre papel da China na reorganização do mundo. Brasil de Fato. https://www.brasildefato.com.br/2026/03/12/elias-jabbour-lanca-no-rio-livro-sobre-papel-da-china-na-reorganizacao-do-mundo/.
- ^a ^b (2024). Núcleo de Economia Industrial e Tecnologia (NEIT) – Corpo docente e pesquisadores. Universidade Estadual de Campinas – Instituto de Economia. https://www3.eco.unicamp.br/neit/nucleo?start=15.
- ^a ^b (2026-03-24). Novo livro de Elias Jabbour aprofunda discussão sobre desenvolvimento chinês. Fundação Maurício Grabois. https://grabois.org.br/2026/03/24/novo-livro-de-elias-jabbour-poder-e-socialismo/.
- ^a ^b Jabbour, Elias; Gabriele, Alberto (2021). China: O Socialismo do Século XXI. Boitempo, São Paulo. ISBN 9786557171097.
- ^a ^b Jabbour, Elias; Boer, Roland (2026). Poder e Socialismo: governança, classes, ciência e projetamento na China. Boitempo, São Paulo. ISBN 9786557175484.
- ^ Jabbour, Elias (2019-10-16). Elias Jabbour: A China é a engenharia social mais avançada do mundo. Vermelho. https://vermelho.org.br/2019/10/16/elias-jabbour-a-china-e-a-engenharia-social-mais-avancada-do-mundo/.
- ^a ^b Jabbour, Elias (2025-12-12). Elias Jabbour explica socialismo do século XXI na China a partir da nova economia do projetamento. Fundação Maurício Grabois. https://grabois.org.br/2025/12/12/elias-jabbour-socialismo-seculo-xxi-projetamento-china/.
- ^ (2025-05-26). Princípios 171: China e nova economia do projetamento. Fundação Maurício Grabois. https://grabois.org.br/2025/05/26/principios-171-china-e-nova-economia-do-projetamento/.
- ^ Jabbour, Elias; Gabriele, Alberto (2022). Socialist Economic Development in the 21st Century: A Century after the Bolshevik Revolution. Routledge, London. ISBN 9780367695286.
- ^a ^b Rodrigues, Theófilo (2022-10-20). Entrevista com Elias Jabbour, vencedor do Prêmio chinês de melhor livro de 2022. Fundação Maurício Grabois. https://grabois.org.br/2022/10/20/entrevista-com-elias-jabbour-vencedor-do-premio-chines-de-melhor-livro-de-2022/.